Um Solitário à Espreita – livro de Milton Hatoum



Autor: Milton Hatoum
Editora: Companhia das Letras
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livro Um Solitário à EspreitaCerta vez, Lindanor Celina, cronista de mão cheia, disse que a crônica é a “fina flor do jornalismo”. Com um pé na ficção e outro na realidade, o desafio da crônica é sair da página do jornal ou da revista para eternizar-se quando editada em livro. Muitos, no Brasil contemporâneo, conseguiram fazer deste exercício jornalístico do cotidiano algo que ganhou “status” de literatura. E a linguagem empregada pelo cronista é que faz seu texto transformar-se em literatura, se não “boa”, literatura essencial.

A literatura, nada de novo até aqui, serve para nos inquietar, leitores que usam lupa ou espremem-se ante a tela de computador, plataforma de vidro, que pode possibilitar o mergulho ou o reflexo enganador (ou no caso da crônica, a reflexão do imediato). Confesso que não sei ler a não ser no velho e bom papel, afinal o livro é a mídia mais antiga e popular de que dispomos (mas meus motivos são mais pessoais e, digamos, óticos).

E foi assim, no formato tradicional, que tive acesso ao livro “Um Solitário à Espreita”, de Milton Hatoum (Companhia das Letras, 2013). Como o autor explicita em nota introdutória, os textos ali contidos “podem ser lidos como crônicas, contos ou breves recortes de memória. Não poucas vezes o gênero literário depende da expectativa do leitor”. É verdade, mas também pode haver manipulação (no sentido platônico) do editor ou do autor.

Certa vez, instigado por jornalista a conceituar conto, Mário de Andrade exclamou: “Conto? Ora, conto é tudo aquilo que seu autor diz que é conto”. Mas é no viés da Estética da Recepção, absorvido e depois sugerido por Hatoum na citada introdução, que quero comentar esta obra, que, provavelmente, surge com menor expectativa do que quando da chegada às livrarias de romances e novelas, lançados pelo autor de Dois Irmãos. Mas de onde menos se espera, é de lá que vem, afinal Um Solitário à Espreita é um livro reconciliador (de nós conosco), e a todos os que leram sem muita empolgação seus dos últimos lançamentos ficcionais. Eu acrescentaria também que é desafiador, desde a forma proposta pelos autor e editor, híbrida: meio crônica, meio conto, meio tábua de memória, reunião do que de melhor Hatoum escreveu em revistas, jornais e sítios literários pelo Brasil afora nos últimos anos.

O título do livro por si só – Um Solitário à Espreita – desafia-nos a pensar no ato estético-comunicativo que permeia o livrobjeto, pois, salvo engano, não há, “a priori” o denso ato criador (escrita) e recriador (a leitura) sem a solidão. O cara a cara com a letra e a frase e o necessário silêncio, que nos espreita numa ação que pode nos transportar, ó metáfora ativa, às esferas esboçadas por Dante. Afinal há casos em que a leitura é mesmo, muitas vezes, misto de inferno, purgatório e paraíso.

Mas o que mais chama atenção no livro é o fato de que pode ser lido como uma mapografia de experiências do autor, o cronista (e Manaus tem ali uma grande oportunidade de fixação de seus valores culturais e arquitetônicos – a destruição do passado histórico, percebe-se nestas páginas, incomoda sobremaneira o cronista). Ou ainda: um testemunho de época, ou como diria o mestre Ernani Chaves, professor da Universidade Federal do Pará, uma coletânea de textos que se faz fixadora de memórias: “o livro [em questão] é interessante (...) porque a memória, quanto mais envelhecemos, é "curta"; e no Um Solitário à Espreita lemos narrativas rápidas, de poucas páginas, como se a escrita precisasse fixar a lembrança, antes que ela fugisse, arrebatada pelo esquecimento...”.

Mas o que mais me chamou atenção foi, sem dúvida, a metalinguagem que permeia grande parte dos textos. Márcia Marques de Morais, grande pesquisadora da PUC-Minas, uma das mais eficientes leitoras da Guimarães Rosa da contemporaneidade, diria: trata-se de um livro metalinguístico, se é que toda obra de ficção não é metalinguística. O livro Um Solitário à Espreita pode servir como uma espécie de roteiro aos aspirantes a escritores (no qual a crônica “Celebridades, Personagens e Bananas” é o melhor exemplo); sim, porque Hatoum, aqui e ali, mostra a engenhosidade de suas ferramentas e seus processos de trabalho, e se ele pode fazê-lo é porque o faz da altura de uma invejável maturidade. Acho mesmo que um dos índices de maturidade de um escritor se dá quando, ao escrever, ele indica aos aspirantes “o caminho das pedras”.

Considerado um dos principais ficcionistas brasileiros da atualidade, Hatoum faz-se, livro a livro, um senhor das frases e sentenças, e sem mostrar-se pretensioso ele discorre sobre mimeses, relação ficção e realidade, leituras e autores marcantes, bem como seus personagens inesquecíveis. Quando trata de política, os textos de Hatoum o fazem com alegre criticidade, fina ironia, quando aborda pobreza e miséria, ele o faz com indignação como se quer de um humanista convicto; quando aborda as viagens, o faz com o olhar de quem mergulha em aventuras e experiências maduras; mas exílio e migração também são assuntos que deixam aflorar a solidariedade e o humanismo de Milton Hatoum. No entanto ele deixa no rastro de sua escrita um rol de autores, livros e personagens, pistas aos mais novos: J. L. Borges, Graciliano Ramos, Mário de Andrade, Max Martins, Charles Baudelaire, Nicolas Behr, João Cabral de Melo Neto, Juan Carlo Onetti, Gustave Flaubert, entre outros.

Embora Manaus (e os arredores do Rio Negro) funcione como uma espécie de eco simbólico da infância do autor, Belém também tem seus momentos de citação, em quatro crônicas do livro. Enfim, "Um Solitário à Espreita" é uma obra que nos toca e nos faz lembrar que grandes leituras também se podem efetivar com a simplicidade do pregão de um vendedor de água, um voo de borboleta, ou quem sabe, com a despretensão do som de flauta que ecoa das páginas da literatura.

Se o leitor não leu O livro "Um solitário à Espreita", que o faça, logo, ou perderá uma chance significativa de aprender. Aprender com prazer, coisa que só a literatura, boa literatura que não prioriza mercados, faz.

“Milton Hatoum, aquele que espreita solitudes e borboletas loucas”

Enviado por Paulo Nunes

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