Chove nos Campos de Cachoeira – livro de Dalcídio Jurandir



Autor: Dalcídio Jurandir
Editora:
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Chove nos Campos de CachoeiraSempre que releio Chove nos Campos de Cachoeira fico inicialmente tomado de um sentimento de estranha contemplação, sentimento que depois transmuta-se, aguilhoado pela expressiva força do texto criado pelo nosso maior romancista. Digo mais, o fio que me ata a este livro está, muito provavelmente, em minha ligação avoenga, uma vez que minha avó marajoara me trazia, mesmo sem que ela e eu soubéssemos, uma certa dicção inconcisa que mais tarde eu encontraria nesta escrita que “desfossaliza” ad eternum a antissaga de Eutanázio. Digo antissaga, pois alguns autores (entre eles está Jorge Luis Borges) apontam que a opção da humanidade pelo romance, significa, em síntese, um decréscimo de tom enunciativo da narrativa, e por que não dizer, de qualidade, pois se considerarmos a representação do mundo pela epopeia – antecessora do romance –, constata-se a humanidade desgarrando-se das tragédias altissonantes dos heróis gregos para a banal fixação dos dramas burgueses. Pois bem, “Chove...” (como passarei a partir de agora a abreviar) é o livro-portal do “Ciclo de Extremo Norte” e é ao mesmo tempo uma obra-prima (opinião pessoal, embora difícil de ser emitida) de um autor único no universo do moderno romance brasileiro.

Não sei se estou certo, mas, “Chove...” – insisto na tese – é o livro mais instigante parido por Dalcídio Jurandir, este internacionalista, socialista convicto, que se fez o inventor, para nós – os belemenses – do caroço de tucumã. Esta “invenção” do caroço de tucumã, embora pareça estranha, não deve ser desconsiderada pelos leitores dos romances do Extremo Norte. Claro que o vocábulo “invenção” tem sua significação ligada à seara criativa. “Chove...” é, vários leitores eficientes já o disseram, um romance retroalimentador da demiúrgica ficção dalcidiana. Livro de introspecção (Benedito Nunes vai falar em renovação introspectiva da árvore do realismo), painel que se desenvolve mais na interioridade que na tentadora exterioridade descritiva do Marajó (improvável é diante da exuberância da paisagem, a interioridade das personagens ganhar destaque). A cada nova leitura, fica-me a certeza da singularidade de “Chove”, singularidade que me sopra cada dia mais forte. Meus sentimentos de leitor não se modificaram agora que me chegou às mãos o trabalho de reformatação do romance, promovido pela professora Rosa Assis. Tal reformatação, é preciso deixar claro, veio da vontade expressa pelo próprio autor, conforme se vê pelas anotações de próprio punho de Dalcídio Jurandir (as páginas foram fotografadas uma a uma) e que somente agora vem à luz, pois tais notas se viam guardadas no acervo do autor, que foi depositado pelos herdeiros na Casa de Rui Barbosa, no Rio de Janeiro.

As mudanças propostas para o romance são significativas. Rosa Assis queimou pestana durante meses e desvendou um quebra-cabeças de anotações, recortes e colagens, balões, frases, riscos e rabiscos transformados em desejos que não devem ser ignorados, e deu no que deu. Em termos práticos, a pesquisa da professora desestruturou a própria “Edição Crítica de Chove nos campos de Cachoeira” que ela organizara e que publicou, em 1998, através da EDUNAMA. Se foi virtuosa a trajetória que culminou na referida edição, muito mais engenhosa é esta pesquisa que modifica substancialmente as versões anteriores. Não pense o leitor que se trata apenas de ressignificar alguns significantes (muitas palavras e expressões foram depuradas por Dalcídio). As mudanças de enunciação são imperiosas e vão mais além do que imagina o leitor. Que tal referirmos-nos a algumas delas?

Comecemos pelo título do capítulo XVII: onde antes se lia “A saleta era o universo”, observa-se a troca do tempo verbal do enunciado, o “é” substitui o “era”, portanto, o pretérito transforma-se em presente. A modificação enfatiza o drama existencial de Eutanázio, que agoniza na rede, sendo circundado por todo um séquito de assistentes. Ironicamente, é na ante-sala da morte – a morte nos interiores do Brasil é um acontecimento coletivo, bem diferente de certas e solitárias mortes na grande cidade, como se atesta em Belém do Grão-Pará, por exemplo – que o filho mais velho de Major Alberto obtém toda a atenção dos familiares e amigos da família. As falas em discurso direto comungam, mais sistematicamente, com o monólogo e o discurso indireto livre. O narrador, infectado pelo drama de Eutanázio, resolve, entretanto, compartilhar os sentimentos de que está acometido, fazendo personagens expressarem-se vivamente na “boca de cena”. No referido capítulo, mais de cinco falas, até então inexistentes, foram acrescidas. O tom dramático, mais uma vez, é ali enfatizado. E os limiares entre narrativa e drama são diluídos. Se não estou enganado, as reticências tiveram seu uso alargado, enfatizando-se a expressividade do narrador. Outros capítulos também têm seus títulos modificados, como se pode notar: No capítulo II, onde se lia “Irene, angústia, solidão”  passamos a ler “A curadeira e doente”. Já no VI, onde se observava “Casa de Seu Cristóvão”, passa-se a ler “Os funerais do sétimo noivado”. O XIV, por sua vez, que tinha “Irene assim é mais amada” passa a ser enunciado como “Um tiro”.

Ganha destaque na nova versão a antecipação do episódio do roubo do “gadinho” pertencente à família do Major Alberto por João, personagem que gozava da confiança da casa, mas que cai em tentação e trai a confiança que lhe tinham depositado. Os últimos parágrafos das páginas 346 e 347 são antecipados por Dalcídio, num recorte que empresta maior fluidez introspectiva ao caso do roubo contra o qual dona Amélia reage indignadamente.

Um relato de assassinato, seguido de suicídio contorna o capítulo com concisa e pungente importância humana. Cristino descarrega sobre si uma cartucheira e dá fim à sua vida, uma vez que estava sendo acusado do estrangulamento de uma mulher. E o que mais se pode acrescentar às emendas do “novo” romance?

Dalcídio Jurandir, consciente de seu poder de carpintaria, após as duas primeiras edições de “Chove...”, redesenha diversas passagens, modifica nome de personagens (Substitui o nome de Ulisses, que passa a denominar-se Lício, e Estefânia que vira Ciana). O autor acrescenta vírgulas onde antes não havia, o que, de certa forma, faz conter a fluidez do estilo líquido da aquonarração, estilo próprio que ele criou; são transformadas frases afirmativas em interrogativas, intensificando o conhecimento os dramas das personagens. Dalcídio modifica tempos verbais (o maior exemplo já foi comentado anteriormente), acrescenta períodos, recria expressões, acresce falas, modifica, em alguns casos, o discurso indireto em direto.

O mais desconcertante – não sei se desconcerto é o sentimento mais preciso para esta ocasião – é a fusão de dois capítulos. Com este recurso, Dalcídio parece ter, através do narrador, prolongado sobremaneira o fim agônico de Eutanázio: ali, mais do que nunca, “as horas pingam vagarosamente na solidão” do irmão mais velho de Alfredo.

No mais, o leitor perceberá que com todas estas modificações, Dalcídio deixou mais tênues os limites entre gêneros literários, fazendo com que o dramático se aproxime do narrativo, operação que talvez pouco importe ao leitor, mas que fará efeito determinante no arcabouço de um texto que já era fascinante e que se tornará mais preciso, mais revelador, ao demonstrar, entre outras coisas, que Dalcídio era um autor exigente que reescrevia um texto quantas vezes fizessem necessárias para que ele se aproximasse da perfeição. Sobre este perfil, digamos mais perfeccionista, o autor de Marajó já se manifestara em carta escrita a Nunes Pereira, conforme atestam as correspondência por eles trocadas, pertencentes ao acervo de Selda Vale, professora da Universidade Federal do Amazonas.

A grande expectativa, para os que gostam da boa literatura, é a de que muito proximamente tenhamos oportunidade de ter acesso à versão definitiva, completa e depurada, de uma obra, que se o autor não teve oportunidade de ver publicada em vida, deixou as pistas para superar o que, em carta a Maria de Belém Menezes,  ele chamou de “edição bárbara” do Chove...  Queria o destino que Rosa Assis, filha de Machado Coelho, amigo do romancista marajoara, protagonizasse tais modificações textuais que fazem de Chove nos campos de Cachoeira, mais do que nunca, uma obra realmente superior. E insuperável.

Chove nos Campos de Cachoeira, edição preparada por Rosa Assis, Editora 7 Letras, Rio de Janeiro, 261 pp. Preço sugerido: R$ 43,00

Dalcídio Jurandir, o reinventor do romance amazônico

Dalcídio Jurandir (Pará, 1909/ Rio de Janeiro, 1979) escreveu dez romances de conteúdo amazônico: Chove nos Campos de Cachoeira, (1940 - prêmio Vechi e jornal D. Casmurro), Marajó (1947), Três Casas e um Rio (1958), Belém do Grão-Pará (prêmios Luísa Cláudio de Souza e Paula Brito - 1960), Passagem dos Inocentes (1963), Primeira Manhã (1967), Ponte do Galo (1971), Os Habitantes (1975), Chão dos Lobos (1976), Ribanceira (1978). Estes anteriormente citados constituem o CICLO DO EXTREMO NORTE, representação dos dramas e magias da Amazônia paraense, com destaque ao espaço do Marajó e de Belém. O referido romancista ficou mais de 30 anos fora das grandes editoras nacionais. Por isso vale ressaltar o esforço feito pela 7 Letras que, em convênio com a Casa de Cultura Dalcídio Jurandir, reeditou recentemente a obra prima do autor, Chove nos campos de Cachoeira. Mas não se trata de qualquer edição, trata-se de um meticuloso cotejo feito por Rosa Assis, uma das grandes especialistas brasileiras, senhora em se tratando da linguagem de Dalcídio Jurandir.

Resenha enviada pelo colaborador Paulo Nunes (Belém-PA)

Editoras

4 comentários para “Chove nos Campos de Cachoeira – livro de Dalcídio Jurandir”

  1. elizabete vidal says:

    Falar sobre, ler sobre, comentar sobre Dalcídio Jurandir significa NÃO ESQUECER Dalcídio Jurandir.
    Os adjetivos aos quais recorremos para falar sobre ele transitam entre o EXTRAORDINÁRIO e o INCOMPARÁVEL.
    Não importam tanto, os que se destacAm entre um e outro.
    O que fica é essa perturbação que o romance provoca.
    PARABÉNS, vOCÊS QUE NÃO NOS DEIXAM ESQUECER DALCÍDIO JURANDIR

  2. Paulo Nunes says:

    Elizabete , cara, você também é uma das que levantam a bandeira e difundem este romancista extraordinário. Bela pesquisadora, necessário canal de reverberação que encontra em ti, cara, um Dalcídio nas águas nem sempre transparentes da aquonarrativa.

  3. Valéria Nascimento says:

    Grata por sua generosidade em compartilhar com maestria a arte de Dalcídio Jurandir, professor Paulo Nunes!

  4. Paulo Nunes says:

    Valéria, o diálogo, isto sim, é o que importa. leitores e mais leitores e deixa o povo dalcidiar.

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